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domingo, maio 20, 2012

Queres? (de José Luís Peixoto)

Queres? (No ar, a interrogação vibra como uma onda invisível.)

Queres? (Pelo silêncio, não sei quem és, não sei a razão em mim que te deseja.)

Queres? (É quase de manhã e poderíamos esquecer tudo, fazer as malas, dormir finalmente.)

Queres? (Uma porta talvez aberta para talvez um abismo ou um deus.)

Quero. (Já não podemos fugir aos nossos olhos inimagináveis, inalcançável é o cansaço.)

Quero. (A luz do quarto continua acessa sobre a luz da manhã, tornamo-nos artificiais.)

Quero. (Os nossos corpos, claro, sempre os nossos corpos, sempre apenas os nossos únicos corpos.)

Quero. (Tarde demais.)

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis.






sábado, junho 18, 2011

"Tarde com sol" de Nuno Júdice

Praia Vale dos Homens. Rogil, Aljezur [Portugal] - Set.'10 de Carlos Nunes

As coisas simples dizem-se depressa; tão depressa
que nem conseguimos que as ouçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.
As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm.



São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras.


Nuno Júdice

terça-feira, maio 24, 2011

Poesia reflexão e pintura ...

"não procuro um amor entre os cardos,

se é entre os cardos que me vês, [...]  se estou

entre os cardos, meu amor, é para te esquecer

e se me vires, pensa que é por ti, absolutamente por ti

que procuro apenas dores, apenas fardos,

para lentamente matar o meu coração. [...]"
 
Valter Hugo Mãe
em O Prisma das Muitas Cores

Cardos brancos, 1997 de Mary Bassi
Acrylic on canvas
97 x 97 cm


Para ler o poema completo de Valter Hugo Mãe, vá ao site  de Sylvia Beirute .

Para ver mais obras de Mary Bassi clique aqui.

Bjs

sexta-feira, maio 20, 2011

Enleio estival


Enleio Estival



Mar

Conheço o teu rosto de cor
Procuro-o no negro espaço,
no límpido ar e no vasto mar!
Reviro tudo no teu encalço
e quando te encontro,
 fujo e escondo-me
 dos teus olhos de frio aço.

[O tempo, esse, há muito nos separou
e a ventania que agora nos juntou
em breve irá passar!]

Insubordinado ser que te acalenta
o desejo vem em bruma morna
na quietude da tarde estival,
Enleva o “corpo insurrecto” e
palpita o sexo, à promessa do [proibido] beijo ...

Imagino o teu corpo
Procuro-o... na nuvem deslizante,
 na vaga revolta e lânguida,
 no horizonte em fogo!

Encontro-o no delirante sonho …
sem defesas, te acaricio,
te beijo e te abraço ...
Sob os teus olhos de jade derretido
pétala a pétala me desfaço!

Morgaine Wordsworth, 2010 Agosto.


sexta-feira, maio 06, 2011

["porque os outros..."]


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.






Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
  
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andersen



"uma flor em Sintra"
Fonte da imagem: Morgaine Wordsworth

quarta-feira, março 02, 2011

No emigres de mi

No emigres de mí
como si fuera miles de balas
no intentes librarte,
soy simplemente yo
tu guerrero en un trozo de papel.


Te ataré como si a los segundos
le robasen sus horas
para parar este tiempo.


Si escucharas cada palabra
cada verbo que me inspiras
no renunciarías a la ceguera,
porque desde que te conocí
mis ojos iluminan un todo
y mi casa florece.


Me convertiste en un niño
que plancha su corazón
y en un orador
cuando hablo de ti.


Gostei do poema acima, e decidi partilhar a informação do livro que está no site:  http://livrosdomundoeditora.blogspot.com/ que como proposta de Editora Inovadora , parece-me bastante interessante! Um bem-haja, e muita coragem e força para a luta que é hoje em dia uma editora que prima pela qualidade e por querer dar voz aos talentos que andam por aí escondidos.

Morgaine W.

domingo, dezembro 12, 2010

Piscis

Olhos de musgo orvalhado


Tez suave, de cetim


Boca carmim, de pecado


C’ aromas a mel e jasmim


Sorriso travesso, alado


Cabelos de vento e de mar


Jeito dengoso, enamorado


Porte esbelto, a combinar


Asas de anjo, para voar


Entre os abismos do Ser

E do demo, aquele olhar

Que já a Adão fez perder

Terna no trato, seduz…

Deixa no ar, sem querer

Uma aura de mistério e luz

Esta sereia-mulher!


(Maria José Martins)



domingo, novembro 07, 2010

Pensamento

"O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face"

Mário Quintana