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sexta-feira, fevereiro 21, 2014

[poesia-fragmento] "Tabacaria"


"
Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.


À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...) "

Fernando Pessoa



Poesia completa aqui.
Imagem da Internet.
K&H


segunda-feira, fevereiro 17, 2014

[Poesia] «Congresso Internacional do Medo»

Já  a algum tempo que não lia poesia, nem postava nada de um dos meus autores predilectos.
Talvez seja do dia (chuvoso), talvez da estação (inverno), talvez do meu estado de espírito (sorumbático!) talvez ... 
Mas há dias assim, que exigem ou um chá bem quente, um abraço caloroso, uma boa gargalhada, ou uma boa dose de poesia.
Hoje é o dia!

Drummond sempre teve este efeito altamente contemplativo/meditativo em mim.

Fui recuperar este Congresso Internacional do Medo, que vos deixo para lerem e reflectirem:

Congresso Internacional do Medo

   Provisoriamente não cantaremos o amor,
   que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
   Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
   não cantaremos o ódio, porque este não existe,
   existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
   o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
   o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
   cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
   cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
   Depois morreremos de medo
   e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

                   Carlos Drummond de Andrade




[imagem da internet]
K&H

sexta-feira, agosto 19, 2011

"I carry your heart with me" - E.E. Cummings

I carry your heart with me (i carry it in
my heart) I am never without it (anywhere
I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
I fear
no fate (for you are my fate, my sweet) I want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you


here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
I carry your heart (I carry it in my heart)
 
by E.E. Cummings


Imagem da internet, aqui.
De um filme que vi esta semana num canal qulaquer por cabo (AXN black ou Sony não lembro qual) In Her Shoes (Na Sua Pele). Apanhei-o a meio, mas no fim a personagem interpretada pela Cameron Dias (não acho piadinha nenhuma a esta atriz, sinceramente) lê este poema de Cummings para a sua irmã. Fiquei curiosa para ver do início, gostei bastante da parte que vi.

K&H 

segunda-feira, maio 23, 2011

Poesia e reflexão

Não resisto a vos deixar isto:

"Há rostos que nunca se irão.

Outros jamais veremos

mas aí estão,

sempre.
..."
de Antonio Fernando de Franceschi ( leiam o resto em http://poesiamsicagentedanossaterra.blogspot.com/ )

É pequena comparada com a imensidão de pensamentos, lembranças e sentimentos que nos surgem ao lermos estas palavras!
Fiquem bem!

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Para Ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo






Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre






Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar,desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?



Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?



Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.



Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.



Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade (Antologia Poética, 1960)
 
 
 
 

terça-feira, dezembro 21, 2010



Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.






Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.


Verdadeiro.


Sê.

Pablo Neruda



quarta-feira, dezembro 01, 2010

Mau Despertar

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum




Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas


Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

Ferreira Gullar

domingo, novembro 14, 2010

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais



Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

domingo, outubro 31, 2010

Te amo...

«Te amo

desde quando tudo era distância
Quando ainda desconhecia minha boca
o sabor do teu nome
E muito além das rosas
que hoje ardem nos campos, te amo
Te amo pelas almas das mais antigas flores
Te amo por cada instante de tua presença
e pelos tempos todos de tua ausência
Assim, te amo
Por tudo
e por nada
Pela história de nós dois
e pelas lembranças que nem tivemos
Te amo assim, sem saber
quando, onde ou porquê
Sabendo apenas que já era amor
antes mesmo de o ser»
Marcelo Roque



Verso & Prosa Poemas www.versoeprosapoemas.blogspot.com

Pai

"Abaraço-me como queria ser por ti abraçada

Quente e pastosa como uma tarde de verão


Afagas-me a cabeça, imagino
Um gesto protector, que nunca chegou


Beijas-me a fronte, sonho
Como uma borrasca invernosa

Ditas-me conselhos ao ouvido, devaneio
Como a ondulação que amima a beira-mar

Lembras-te de mim, desejo
(Vês-me?) nas amarelas folhas outonais,
na cameleira em flor duma  outra primavera
no inverno branco, húmido e tiritante,
no bikini às bolinhas num longínquo dia de verão


Tu que eras a medida para todos os outros
Traíste-me, amaldiçoaste-me
uma existência desconfiada
deserta de amor
seca de carinho."

Morgaine Wordsworth, 25.05.2010
 

Para Ti - Mia Couto

"Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida"

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

do site: http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200811100102

Puro Prazer

“Tracei teu corpo no céu



Com dedos finos


Molhados no mel




Delineei teus olhos, nariz e boca


Com dedos leves


Vertendo o mel, gota a gota



Percorro teu torso,

Com língua inquieta e carmesim

Vagueio em tuas costas

Com lábios húmidos e rubros

Num orvalhado frenesim



Desliza teu tempestuoso ser

Abraço-te com todo meu corpo

Trespassa-me a tua flecha de fogo


Desabrocho no lancinante gozo


Do (teu) saciado prazer”

Morgaine 2010.06.21



terça-feira, outubro 19, 2010

A mulher vestida de chuva

"A mulher vestida de chuva

Era o mar que ele queria navegar…
Trazia na diáfana pele
A tranquilidade do caminho tantas vezes percorrido

A mulher vestida de chuva
Sacode dos cabelos a fragrante bruma…
Trazia na alvura do seio farto
A promessa da paz que se anseia
Pousada a cabeça no seu regaço
Dormir o sono tranquilo dos apaixonados

A mulher vestida de chuva
De tenros lábios carmesins…
Segregava calor em promessas
A imensidão da ténue chama
Do mal-me-quer diáfano
Pragana no campo desfolhado

A mulher vestida de chuva
No ventre ardente e fértil…
Trazia o segredo da eternidade
Em ondas revoltas e feras
Na aurora da estação virtuosa

A mulher vestida de chuva
Nos braços alongados e ternas mãos…
Trazia a jura da liberdade original
Do peso do mundo que paira no entardecer da vida

A mulher vestida de chuva
No ofegante sopro estival
Desvaneceu-se, fantasmagórica espiral ondulante
Miragem na terra ardente, solo árido de fogo lambido."

Morgaine Wordsworth 13/09/2010

quinta-feira, outubro 07, 2010

Erro

Erro



"Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Nem foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indiferente,
Em tua presença vivo,
Nulo se estavas ausente.
E se ora me vês esquivo,
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que, — como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.




Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro...Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras..."


Machado de Assis, in 'Crisálidas'

Copiado do site : http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809022122 

quinta-feira, setembro 23, 2010

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…

Libertai o verbo dos seus grilhões sociais
Da incomensurável censura
Do véu negro da castradora moral
Do peso da domesticada vergonha

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
esvoacem como andorinhas duma primavera tardia
ondulem como constantes vagas na improfícua praia
mergulhem no negro rio putrefacto da Humanidade

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
caiam do céu em ácida precipitação
corroam cabelos, carnes, ossos
beijem a Natureza com lábios ávidos e mortíferos
calcorreiem a Terra com dentes aguçados e feros

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
sorvam do Mar a existência
suguem da Terra a vida.
Do Homem, rascunho feito, extinga-se a semelhança
à Criança, traguem, sem pudor, sua inocência
às Cãs, cocem, com garras ferinas, a escara escura e pútrida
à Cria, esventrem-na, sem pejo, pelo seu sagrado manto

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
ascenda a profícua intolerância
pregue-se o amoral racismo
cultive-se a fugaz opulência
prolifere a fútil aparência

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
reverenciem o profano deus
ofídia de bifurcada língua
futilidade e mentira segrega
sede e fome semeia

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
gotejem imorais pensamentos
fogueiem amorais ideais
aspirem o futuro infértil e certo

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
eclipse-se o vão conhecimento
troça da imberbe sabedoria
saqueie-se da História as inglórias de sanguinárias vitórias

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
em ondas abrasivas se propaguem
consumam o frescor da Fonte Vital
apodreçam as entranhas da obstinada Humanidade!

Morgaine Wordsworth 16/09/2010

quinta-feira, agosto 26, 2010

Puro Prazer

“Desenhei teu corpo no céu
Com dedos finos
Molhados no mel

Delineei teus olhos, nariz e boca
Com dedos leves
Vertendo o mel, gota a gota

Percorro teu torso,
Com língua inquieta e carmesim
Vagueio em tuas costas
Com lábios húmidos e rubros
Num orvalhado frenesim

Desliza teu tempestuoso corpo
Abraço-te com todo o meu ser
Trespassa-me a tua flecha de fogo
Desabrocho no lancinante gozo
Do (teu) saciado prazer”

Morgaine 2010.06.21

Praia da Amoreira, Abril 2003

segunda-feira, junho 21, 2010

«Não te amo, quero-te»


« Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.

E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.


Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.


Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?


E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não. »

Almeida Garret (1799-1854)
 
 
"Danae"

Gustave Klimt, 1907-8





«A cada dia que vivo, mais me convenço de que
o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.»

Carlos Drumond Andrade