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sexta-feira, maio 20, 2011

Enleio estival


Enleio Estival



Mar

Conheço o teu rosto de cor
Procuro-o no negro espaço,
no límpido ar e no vasto mar!
Reviro tudo no teu encalço
e quando te encontro,
 fujo e escondo-me
 dos teus olhos de frio aço.

[O tempo, esse, há muito nos separou
e a ventania que agora nos juntou
em breve irá passar!]

Insubordinado ser que te acalenta
o desejo vem em bruma morna
na quietude da tarde estival,
Enleva o “corpo insurrecto” e
palpita o sexo, à promessa do [proibido] beijo ...

Imagino o teu corpo
Procuro-o... na nuvem deslizante,
 na vaga revolta e lânguida,
 no horizonte em fogo!

Encontro-o no delirante sonho …
sem defesas, te acaricio,
te beijo e te abraço ...
Sob os teus olhos de jade derretido
pétala a pétala me desfaço!

Morgaine Wordsworth, 2010 Agosto.


domingo, outubro 31, 2010

Pai

"Abaraço-me como queria ser por ti abraçada

Quente e pastosa como uma tarde de verão


Afagas-me a cabeça, imagino
Um gesto protector, que nunca chegou


Beijas-me a fronte, sonho
Como uma borrasca invernosa

Ditas-me conselhos ao ouvido, devaneio
Como a ondulação que amima a beira-mar

Lembras-te de mim, desejo
(Vês-me?) nas amarelas folhas outonais,
na cameleira em flor duma  outra primavera
no inverno branco, húmido e tiritante,
no bikini às bolinhas num longínquo dia de verão


Tu que eras a medida para todos os outros
Traíste-me, amaldiçoaste-me
uma existência desconfiada
deserta de amor
seca de carinho."

Morgaine Wordsworth, 25.05.2010
 

Puro Prazer

“Tracei teu corpo no céu



Com dedos finos


Molhados no mel




Delineei teus olhos, nariz e boca


Com dedos leves


Vertendo o mel, gota a gota



Percorro teu torso,

Com língua inquieta e carmesim

Vagueio em tuas costas

Com lábios húmidos e rubros

Num orvalhado frenesim



Desliza teu tempestuoso ser

Abraço-te com todo meu corpo

Trespassa-me a tua flecha de fogo


Desabrocho no lancinante gozo


Do (teu) saciado prazer”

Morgaine 2010.06.21



terça-feira, outubro 19, 2010

A mulher vestida de chuva

"A mulher vestida de chuva

Era o mar que ele queria navegar…
Trazia na diáfana pele
A tranquilidade do caminho tantas vezes percorrido

A mulher vestida de chuva
Sacode dos cabelos a fragrante bruma…
Trazia na alvura do seio farto
A promessa da paz que se anseia
Pousada a cabeça no seu regaço
Dormir o sono tranquilo dos apaixonados

A mulher vestida de chuva
De tenros lábios carmesins…
Segregava calor em promessas
A imensidão da ténue chama
Do mal-me-quer diáfano
Pragana no campo desfolhado

A mulher vestida de chuva
No ventre ardente e fértil…
Trazia o segredo da eternidade
Em ondas revoltas e feras
Na aurora da estação virtuosa

A mulher vestida de chuva
Nos braços alongados e ternas mãos…
Trazia a jura da liberdade original
Do peso do mundo que paira no entardecer da vida

A mulher vestida de chuva
No ofegante sopro estival
Desvaneceu-se, fantasmagórica espiral ondulante
Miragem na terra ardente, solo árido de fogo lambido."

Morgaine Wordsworth 13/09/2010

domingo, outubro 03, 2010

Hoje, a propósito da chuva...

Hoje, a propósito da chuva, uns amigos comentavam que com aquele tempo sabia mesmo bem era estar em casa, no quentinho, ouvindo a chuva a cair e observá-la da janela…
Geralmente a simples ideia dessa cena gera um sentimento de conforto, prazer, aconchego, etc podemos falar até mesmo em felicidade.

Mas o que se passa comigo é precisamente o contrário. Nestes dias de chuva o mais normal é deixar-me levar por uma forte inquietação e desconforto quando estou aqui no quentinho (aconchego do lar) e uma enorme tristeza. (o mesmo se dá nos dias de muito calor, que o ar é sufocante na rua… )

Penso naqueles que estão lá fora, que não têm um lar aconchegante e quentinho, onde se ferve um pouco de água e se bebe um reconfortante chá, sentada num confortável sofá, assistindo programas estúpidos na televisão… não consigo deixar de pensar nas pessoas que não têm um lar, que vivem na rua à mercê das intempéries e inúmeras outras situações desagradáveis e mesmo perigosas.

Impossível não pensar na grande quantidade de animais abandonados que deambulam nas nossas ruas, esfomeados e expostos também ao frio, à procura de um cantinho onde se possam minimamente abrigar da chuva e tentar manterem-se secos ou quentes…

É mais forte que eu, se acordo à meio da noite com o barulho da chuva a cair, é automático a imagem de um sem-abrigo mal agasalhado abrigado sob as arcadas da praça do Comércio; e a de um gatinho pequenino, faminto e encharcado a miar desesperado à procura de um refúgio, já não durmo.

É um mal estar que se instala e perdura, lá se acalma com uma ou outra distracção durante uma jornada de trabalho, mas mal se relaxa um pouco, reaparece, incomodativo e triste.

Talvez já seja um hábito, talvez eu o procure à mínima ponta de nuvem no horizonte, de propósito para ficar triste, talvez goste de ser triste, sinta-me bem com ela… poderá ser a minha musa inspiradora, tal como o fingimento era para o Pessoa.

Talvez seja a âncora que me prende os pés à terra, não me deixando criar muitas ilusões, fazendo-me apreciar as coisas mais simples da vida, e a aceitar mesmo os mais pequenos gestos de amizade, carinho, amor, como uma verdadeira bênção (em vez de estar à espera de grandes e sonantes demonstrações de afecto, heroísmo, coragem, …)

Não me permitir desfrutar desse momento de prazer e felicidade que é estar aconchegada em casa, a bebericar um chá, a ouvir e observar a chuva a cair é como se fosse o meu protesto, mudo e solitário, contra um mundo desumano, desamoroso, imoral e hipócrita.

Aqui sentada no sofá, o cinzento céu apressa o lusco-fusco, ou quase o suprime, a penumbra invade o aposento, com uma roupa aconchegante, mas os pés descalços e sem meias em contacto com o chão frio, olho para a janela e já não chove - pelo menos por agora, mas as cinzentas nuvens prometem continuar a verter o precioso líquido mais logo, numa negra e fria noite de Outono, o desconforto aumenta… – o chá quase frio esquecido sobre a mesa de centro - ainda continuará a ser bebericado mesmo gelado até à última gota a inquietação é crescente… -.

Aqui sentada no sofá…

Penso no velhinho de roupa rota abrigado num vão de escada de um velho e devoluto prédio da cidade despida de afectos…;

Penso no gatinho preto e branco molhado, a miar abrigado sob um novo, bonito e possante carro e num sarnento cão, um monte de pêlo, pele e osso que talvez tenha sido em tempos, um meigo Labrador deitado à porta de um elegante prédio de uma rua de afeição desnuda…;

Penso na idosa deitada na sua velha cama tapada com os desbotados cobertores a tentar aquecer-se olha receosa a mancha negra da humidade no tecto do quarto da solitária casa de um esquecido bairro…

Penso naqueles que já partiram, uns novos, outros mais velhos, vejo os seus rostos, ouço-lhes a voz, aguda, grave, alegre, triste, lembro-me de um trejeito, de um específico gesto deste e daquela que se encontram depositados placidamente na minha memória…

Pego na chávena, beberico o amargo e frio chá, que nos lábios torna-se salgado em contacto com as lágrimas que pelo meu rosto escorrem - a tristeza instala-se.

Talvez a tristeza seja a minha silenciosa e sentida homenagem a todos estes, …

Talvez sinta-me bem com a tristeza, faça dela a minha permanente e secreta companheira…

Talvez, à minha maneira seja feliz a ser triste…

Talvez não queira ser feliz…

Só quero, ou tenho a pretensão de querer ser Humana!

E talvez, a tristeza que me acompanha, seja a minha maneira de ser Humana!

Morgaine Wordsworth, 2010.10.3

quinta-feira, setembro 23, 2010

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…

Libertai o verbo dos seus grilhões sociais
Da incomensurável censura
Do véu negro da castradora moral
Do peso da domesticada vergonha

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
esvoacem como andorinhas duma primavera tardia
ondulem como constantes vagas na improfícua praia
mergulhem no negro rio putrefacto da Humanidade

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
caiam do céu em ácida precipitação
corroam cabelos, carnes, ossos
beijem a Natureza com lábios ávidos e mortíferos
calcorreiem a Terra com dentes aguçados e feros

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
sorvam do Mar a existência
suguem da Terra a vida.
Do Homem, rascunho feito, extinga-se a semelhança
à Criança, traguem, sem pudor, sua inocência
às Cãs, cocem, com garras ferinas, a escara escura e pútrida
à Cria, esventrem-na, sem pejo, pelo seu sagrado manto

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
ascenda a profícua intolerância
pregue-se o amoral racismo
cultive-se a fugaz opulência
prolifere a fútil aparência

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
reverenciem o profano deus
ofídia de bifurcada língua
futilidade e mentira segrega
sede e fome semeia

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
gotejem imorais pensamentos
fogueiem amorais ideais
aspirem o futuro infértil e certo

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
eclipse-se o vão conhecimento
troça da imberbe sabedoria
saqueie-se da História as inglórias de sanguinárias vitórias

Soltam-se as palavras que ecoam na mente do Mundo…
em ondas abrasivas se propaguem
consumam o frescor da Fonte Vital
apodreçam as entranhas da obstinada Humanidade!

Morgaine Wordsworth 16/09/2010

terça-feira, agosto 31, 2010

Desejo - resposta a Blake

"Aqueles que reprimem o desejo assim o fazem porque o seu desejo é fraco o suficiente para ser reprimido." William Blake

O Sr. Blake, permita-me discordar desta afirmação.

Quanto a mim, não existem desejos fracos. O desejo é desejo, algo que nos assoma de mansinho e mal nos apercebemos de como nos tolhe a razão. Assume o controlo dos nossos pensamentos e as nossas acções acabam por ser fortemente condicionadas pela satisfação do mesmo. Passa-se a sonhar acordado com as diversas maneiras pelos quais o podemos satisfazer ocorrendo-nos de tudo desde o mais banal, ao mais perverso (estes afastamos logo da ideia com repugnância, dizendo a nós próprios “seria incapaz de fazer uma coisa destas!” e eu pergunto “Seria?”)

Este desejo exerce tal influência sobre nós que mal damos conta que nossas decisões, humores, disposições, escolhas, etc. estão todas sob a sua poderosa influência. O desejo, mexe com todo o nosso ser, altera-nos até o corpo, que estremece e nauseia por desejar tanto.

Por vezes é a mesma sensação de guiar um carro com dois volantes, a razão manda-nos desviar, o desejo, seguir em frente; ou como tentar acelerar e travar ao mesmo tempo, e lá vamos aos solavancos até ficarmos enjoados.

Por isso discordo desta afirmação Sr. Blake!

Permita-me que lhe diga que “aqueles que conseguem reprimir o seu desejo” são pessoas muito fortes, com uma consciência treinada o suficiente para saber que existe um tempo para tudo, e mais ainda, que não podemos ter tudo o que desejamos, pura e simplesmente existem desejos que não podem nem devem ser satisfeitos, porque não nos trariam proveito algum.

A título de exemplo, se um diabético não controla o seu desejo por açúcar, a mera satisfação de seu desejo será apenas temporária, a longo prazo satisfazê-lo pode ser fatal! Valerá à pena?

Talvez então seja bom refrearmos ou reprimirmos alguns dos nossos desejos, principalmente aqueles que a longo prazo, não nos vão trazer benefício nenhum, mas sim apenas prejudicar-nos.

A tarefa é hercúlea, porque nossos desejos são sempre fortes, e reprimi-los pode ser uma actividade diária, temporária ou esporádica, mas o seu refreio não será menos difícil em nenhuma das situações.

Exige força de carácter!





















sexta-feira, agosto 13, 2010

quinta-feira, maio 20, 2010

Conflito de Ícaro


«Sozinho o menino
nas asas de Ícaro voou
Das alturas a vida observou,
colinas, montes, rios, vales e mares
O soluço sufocou
insignificante duplo ser,
a preciosa quimera abrigou.

Sozinho o menino
nas asas de Ícaro voou
Percorrer o mundo anelou
voltear edifícios, pontes, colossos...
Ao lar, com a setentrional bússola,
Homem voltar.

Sozinho o menino
nas asas de Ícaro voou
Dela, as longas melenas, as suaves mãos,
os meigos lábios, os alvos seios desejou...
seu nome em êxtase expresso
o vento levou!

Sozinho o menino
nas asas de Ícaro voou
Esquecer fantasiou
amigos, conhecidos e gentes...
Planando sobre brancas nuvens
transpondo cinzentas formações
a utopia por fim desmoronou.

Sozinho o menino
nas asas de Ícaro voou
o coração apertado...
Dela, promessas, lágrimas e lamentos recordou
Seu nome um gemido
que a copiosa chuva lavou!

Sozinho o menino
nas asas de Ícaro voou
Do sonho infantil lembrou
explorar lua, astros e estrelas,
cavalgar cometas,
nadar na leitosa galáxia
Tocar os deuses...
dos anjos ouvir as trombetas
no boreal anil do infinito azul! »

(Morgaine W. - 2010.05.03)

Crédito da Imagem: John Davis "Icarus" (imagem digital em http://fineartamerica.com/images-medium/icarus-john-davis.jpg )

domingo, maio 02, 2010

Caleidoscópio


"Sopra vento, gira tempo...
num sussurro,
imemoriais tesouros:
Anel de lata,
da boneca, o vermelho laço
do bombom, a prata.
Rebola o novelo, brinca o alegre gatinho
leva a bola aos entusiásticos meninos.

Sopra vento, gira tempo...

volve o colorido carrossel,
faz voar o pincel...
rabisca o colorido lápis, casa, árvore, sol, nuvem, gaivota, céu…
Alça as saias das meninas
as entoadas cirandas
de mãos dadas volteando
Soltavam a pragana.

Sopra vento, gira tempo...

acorda Quixote, o moinho volteia
espiga alta ao sol dourada
de pau, o veloz corcel galopa
Dulcineia te espera ao fundo de uma eira.

Sopra vento, gira tempo...

Volve o sonho do menino só
põe a venda, tacteia
triste quer que o pai lhe “compre um amigo”…
"Do baile a Senhora é dona"
véu de velado rosto
vestido escuro de muitos folhos
olhar de pálido desgosto…

Sopra vento, gira tempo...

Cascata gelada de límpida água
arrepiava a pele
dos imberbes corpos.
Na planície verde
calma pastava a ruminante vaca,
no ar de laranjeira em flor
esvoaçava o pequenino pássaro
absorvendo precioso néctar com fervor.

Sopra vento, gira tempo...

Onda salgada
de areia banhada...
balde, chapéu, bikini
um azul baunilhado céu
numa praia longe daqui.

Sopra vento, gira tempo...
Solta o laço
desfaz as tranças
sincero era o sorriso, puro era o abraço
Na amizade de crianças."


quinta-feira, abril 29, 2010

Encómio sincero

Encómio sincero




Ha tanto tempo que não te via,


tanto, tanto tempo que não te sentia


Chegaste de mansinho, trazendo a nostalgia


da infância, da mocidade, da alegria


A princípio mal te reconheci,


fugaz aliado, veloz protector


Passaste por mim, roçando-te


garoa invernosa


oressa primaveril


Entranhaste-te pela minha roupa,


pele, olfacto e tacto


nas veias seguiste o teu caminho


tomando meu ser de assalto


Noite de ansiosa insónia


arrebatamento poético


frenética catarse


Númen renovado


outrora arrojado


agora velado

Morgaine Wordsworth