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segunda-feira, abril 26, 2010

"Dorme sobre o meu seio" Fernando Pessoa

Dorme sobre o meu seio




Dorme sobre o meu seio,


Sonhando de sonhar...


No teu olhar eu leio


Um lúbrico vagar.


Dorme no sonho de existir


E na ilusão de amar.



Tudo é nada, e tudo


Um sonho finge ser.


O 'spaço negro é mudo.


Dorme, e, ao adormecer,


Saibas do coração sorrir


Sorrisos de esquecer.






Dorme sobre o meu seio,


Sem mágoa nem amor...






No teu olhar eu leio


O íntimo torpor


De quem conhece o nada-ser


De vida e gozo e dor.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

"Conselho" Fernando Pessoa

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...