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segunda-feira, fevereiro 17, 2014

[Poesia] «Congresso Internacional do Medo»

Já  a algum tempo que não lia poesia, nem postava nada de um dos meus autores predilectos.
Talvez seja do dia (chuvoso), talvez da estação (inverno), talvez do meu estado de espírito (sorumbático!) talvez ... 
Mas há dias assim, que exigem ou um chá bem quente, um abraço caloroso, uma boa gargalhada, ou uma boa dose de poesia.
Hoje é o dia!

Drummond sempre teve este efeito altamente contemplativo/meditativo em mim.

Fui recuperar este Congresso Internacional do Medo, que vos deixo para lerem e reflectirem:

Congresso Internacional do Medo

   Provisoriamente não cantaremos o amor,
   que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
   Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
   não cantaremos o ódio, porque este não existe,
   existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
   o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
   o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
   cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
   cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
   Depois morreremos de medo
   e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

                   Carlos Drummond de Andrade




[imagem da internet]
K&H

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.



A bunda é a bunda,
redunda.
Carlos Drummond Andrade




Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar,desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?



Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?



Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.



Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.



Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade (Antologia Poética, 1960)
 
 
 
 

[Fácil]

"... Fácil é sonhar todas as noites.

Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,

mas com tamanha intensidade, que se petrifica,

e nenhuma força jamais o resgata"
Drummond

segunda-feira, junho 21, 2010

«A cada dia que vivo, mais me convenço de que
o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.»

Carlos Drumond Andrade

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Colchão de amar

“O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.”

Carlos Drummond de Andrade