domingo, outubro 03, 2010

Hoje, a propósito da chuva...

Hoje, a propósito da chuva, uns amigos comentavam que com aquele tempo sabia mesmo bem era estar em casa, no quentinho, ouvindo a chuva a cair e observá-la da janela…
Geralmente a simples ideia dessa cena gera um sentimento de conforto, prazer, aconchego, etc podemos falar até mesmo em felicidade.

Mas o que se passa comigo é precisamente o contrário. Nestes dias de chuva o mais normal é deixar-me levar por uma forte inquietação e desconforto quando estou aqui no quentinho (aconchego do lar) e uma enorme tristeza. (o mesmo se dá nos dias de muito calor, que o ar é sufocante na rua… )

Penso naqueles que estão lá fora, que não têm um lar aconchegante e quentinho, onde se ferve um pouco de água e se bebe um reconfortante chá, sentada num confortável sofá, assistindo programas estúpidos na televisão… não consigo deixar de pensar nas pessoas que não têm um lar, que vivem na rua à mercê das intempéries e inúmeras outras situações desagradáveis e mesmo perigosas.

Impossível não pensar na grande quantidade de animais abandonados que deambulam nas nossas ruas, esfomeados e expostos também ao frio, à procura de um cantinho onde se possam minimamente abrigar da chuva e tentar manterem-se secos ou quentes…

É mais forte que eu, se acordo à meio da noite com o barulho da chuva a cair, é automático a imagem de um sem-abrigo mal agasalhado abrigado sob as arcadas da praça do Comércio; e a de um gatinho pequenino, faminto e encharcado a miar desesperado à procura de um refúgio, já não durmo.

É um mal estar que se instala e perdura, lá se acalma com uma ou outra distracção durante uma jornada de trabalho, mas mal se relaxa um pouco, reaparece, incomodativo e triste.

Talvez já seja um hábito, talvez eu o procure à mínima ponta de nuvem no horizonte, de propósito para ficar triste, talvez goste de ser triste, sinta-me bem com ela… poderá ser a minha musa inspiradora, tal como o fingimento era para o Pessoa.

Talvez seja a âncora que me prende os pés à terra, não me deixando criar muitas ilusões, fazendo-me apreciar as coisas mais simples da vida, e a aceitar mesmo os mais pequenos gestos de amizade, carinho, amor, como uma verdadeira bênção (em vez de estar à espera de grandes e sonantes demonstrações de afecto, heroísmo, coragem, …)

Não me permitir desfrutar desse momento de prazer e felicidade que é estar aconchegada em casa, a bebericar um chá, a ouvir e observar a chuva a cair é como se fosse o meu protesto, mudo e solitário, contra um mundo desumano, desamoroso, imoral e hipócrita.

Aqui sentada no sofá, o cinzento céu apressa o lusco-fusco, ou quase o suprime, a penumbra invade o aposento, com uma roupa aconchegante, mas os pés descalços e sem meias em contacto com o chão frio, olho para a janela e já não chove - pelo menos por agora, mas as cinzentas nuvens prometem continuar a verter o precioso líquido mais logo, numa negra e fria noite de Outono, o desconforto aumenta… – o chá quase frio esquecido sobre a mesa de centro - ainda continuará a ser bebericado mesmo gelado até à última gota a inquietação é crescente… -.

Aqui sentada no sofá…

Penso no velhinho de roupa rota abrigado num vão de escada de um velho e devoluto prédio da cidade despida de afectos…;

Penso no gatinho preto e branco molhado, a miar abrigado sob um novo, bonito e possante carro e num sarnento cão, um monte de pêlo, pele e osso que talvez tenha sido em tempos, um meigo Labrador deitado à porta de um elegante prédio de uma rua de afeição desnuda…;

Penso na idosa deitada na sua velha cama tapada com os desbotados cobertores a tentar aquecer-se olha receosa a mancha negra da humidade no tecto do quarto da solitária casa de um esquecido bairro…

Penso naqueles que já partiram, uns novos, outros mais velhos, vejo os seus rostos, ouço-lhes a voz, aguda, grave, alegre, triste, lembro-me de um trejeito, de um específico gesto deste e daquela que se encontram depositados placidamente na minha memória…

Pego na chávena, beberico o amargo e frio chá, que nos lábios torna-se salgado em contacto com as lágrimas que pelo meu rosto escorrem - a tristeza instala-se.

Talvez a tristeza seja a minha silenciosa e sentida homenagem a todos estes, …

Talvez sinta-me bem com a tristeza, faça dela a minha permanente e secreta companheira…

Talvez, à minha maneira seja feliz a ser triste…

Talvez não queira ser feliz…

Só quero, ou tenho a pretensão de querer ser Humana!

E talvez, a tristeza que me acompanha, seja a minha maneira de ser Humana!

Morgaine Wordsworth, 2010.10.3

1 comentário:

Inês Dourado disse...

São 3.13 da madrugada. Vim dar uma 'espreitada' ao teu blog para te agradecer o recente comentário à minha 'Folha de Outono' e todo o modo estar em que mfico quando chega esta estação do ano. Contudo, apesar da hora, não resisti à leitura deste teu 'post'. E hoje, porque o cansaço já se apodera de mim, ainda que eu queira resistir (mas porque é que temos que dormir caramba!!! O tempo mal aproveitado este, o de 'dormir'), só te digo isto: Não está sózinha nesses pensamentos e tristeza. Talvez esteja na hora de pensarmos fazer algo para atenuar este modo de estar, não?
Beijinhos da amiga e 'parceira de pensamentos de Outono'
(e, entretanto, já são 3.24h...'ó xenti' :))
Inês